Estou marchando a horas? Dias? Meses? Aguço minha visão mas só vejo árvores e mais árvores quilômetros a frente.

A lembrança de uma última batalha, de um último golpe. Certeiro. Fatal. A armadura finalmente pesou e arrastou o corpo para o chão. Mas porque insisto em marchar?

Missão cumprida, soldado. Volte para casa!

Finalmente me acho em pensamentos. A visão de um cadáver ardendo em chamas amarrado a um tronco surge a minha frente. O metal derretendo contra uma a carne carbonizada torna tudo ainda mais hediondo.
Não há casa para se retornar. A missão nunca acaba. Sempre existirá algo a se proteger.

As orbes vazias do crânio começam a irradiar uma tênue luz dourada. Como se o morto lentamente abrisse os olhos para encarar a alma diante de si. A luz intensifica-se e varre tudo ao seu redor, revelando e expulsando tudo o que se vale das sombras para ocultar-se. Diante de mim agora está não mais um corpo em funeral bizarro, mas uma armadura maciça em ouro. Punhos serrados à altura do peito seguram o cabo de uma imponente espada bastarda. As pesadas manoplas não deixam dúvidas.

O guardião jamais descansa.


1872 CV

As Trigêmeas
O jovem aprendiz deu um passo a frente. Enquanto as Trigêmeas o olhavam, ele sabia que toda sua vida e a vida antes da sua e a vida depois da sua se revelavam para elas.

Vejo seu fio de destino. Ele é deveras interessante... - falou Nona em um assustador sorriso. Havia lascívia em sua voz, mas também uma maldade infantil e cruel.

Mas de extensão breve. - completou com rispidez Morta e quando ela falava era como se tudo fosse concreto. Tudo fosse certo.

O jovem tremia. Suas roupas maltrapilhas e sua ferida no ombro não o ajudam a se apresentar ali. No entanto, ele sabia que era a única chance que teria com as Trigêmias, a única possibilidade de alguém da estirpe dele ter a chance de estudar a cronomancia.

Décima olhava pra ele e sua seriedade era uma porta aberta, um convite à fala.

Conte-me sobre sua visão, neófito. - falou ela.

Eu... eu vi um grupo. Não reconheci seus rostos, mas de alguma forma sabia quem eram. Eles brilhavam como o crepúsculo. Aquele que carregava o sol dentro de si levava uma armadura nos braços... uma armadura púrpura... seu semblante era de tristeza e pesar... ele se sentia culpado, mas entendeu a coragem que lhe foi ensinada ali. Eles... - o jovem fechou os olhos - eles fizeram uma pira em uma área santificada com a armadura púrpura... eu vejo o símbolo de Helm em seus rituais... repetindo... repetindo... Ele disse preces... agradeceu aos amigos...

Nona e Morta se entreolhavam. A primeira faminta, a segunda farta. Décima continuava impassível, esperando com calma a fala do humano.

Eles caminharam pelas catacumbas de Myth Drannor... O ranger da lua e o cavaleiro do sol desconfiavam de algo... mas sua dúvida foi sanada sem embates... "Ele não é Josadiah"... eu os escuto dizer.
Mystrander.

A ânsia de Nona quase a fez saltar para cima do menino. Com o olhar, Décima a conteve. Sem abrir os olhos, ele continuava.

Eles decidem descer os salões do passado élfico... demoram em uma armadilha... há uma mulher de vestes douradas... pelos deuses... Mystrander? É realmente Mystrander?

As trigêmeas se entreolharam, há muito elas não sentiam a sensação de surpresa, pois há muito elas não viam alguém revelar a face de uma divindade em visões e não enlouquecer.

Mystrander fala com o cavaleiro dourado. Ela fala sobre uma noite longa... que dura um ano... e sobre o renascimento de Lathander... ... eu consigo ver as coisas que ela fala... isso realmente aconteceu? - perguntou assustado, mas sem abrir os olhos.

O jovem começou a brilhar e seu corpo tremer, como se tomado por uma angustiante febre. Morta tentou interromper suas visões, mas Décima a impediu. Aquilo era mais pessoal pra ela do que as duas irmãs acreditavam. Nunca as Trigêmeas estivaram tão em desacordo.

Mirklo é o nome que eu escuto. Vejo sangue em dois fios entrelaçados... uma rosa em correntes que derrama sangue de suas pétalas... Mystrander quer ajudá-los... Há alguma dúvida, mas todos aceitam. Eles recebem uma bênção... o sol dentro do cavaleiro é dividido entre eles, agora todos brilham como... não! Eles são o crepúsculo... o tempo se revela a eles... são...? São os primeiros cronomancistas? - ele abriu os olhos, esperando uma resposta das irmãs. Elas nada esboçaram e ele continuou.

Mystrander vai embora e eles continuam seu caminho... vão mais fundo do que os elfos foram... eles seguem aqueles que carregam a marca dos dragões... mas também encontram outra coisa... demônios! Há uma batalha... não há baixas, mas as coisas começam a piorar... há dois portais abertos... a barda do povo belo ergue uma parede de energia... os combatentes são separados dos seguidores do dragão... Finalmente eles vencem... a parede de energia está se dissipando...

Um feixe de luz negra tomou a sala, desfazendo por completo o corpo do jovem. Morta reuniu a energia em suas mãos, segura de suas ações.

Por que fez isso, irmã? - perguntou Décima com sua fúria contida em uma máscara de racionalidade.

Se eu não o fizesse, a visão faria. - respondeu e um desgosto em forma de sangue escorreu de seus lábios, enquanto ela saía dali. Suas irmãs não a contestaram, as certezas de Morta são irrefutáveis.

Nona olhava pra décima e sua expressão é de felicidade impedida. Décima observou as cinzas do tempo atravessarem o salão aberto e irem embora dali como o riso de um bobo.

E agora, irmã? - perguntou Nona, frustrada.

Esperar. O tempo está do nosso lado, logo teremos um novo substituto. - respondeu secamente Décima, dando as costas à irmã e indo a seus aposentos.

Os Crepúsculos do Escudo descem além do último nível de Myth Drannor.

A estátua de carne encouraçada com o metal celeste continua imóvel. Três dezenas deverão passar até que ele possa mover-se novamente. A fé o tomou completamente. Em orações contínuas, suas mãos unidas sangram frente à força que as une. Em sua mente um único propósito, um único deus, uma única benção. Um raio de sol doura a sua fronte e uma voz cálida como bater de asas de um falcão sob as primeiras luzes do crepúsculo paternalmente lhe fala ao coração.

"Mirklo, meu fiel, meu amado servo."

Espanto toma a expressão do servo.

"Não tema, meu bom Mirklo. Eu estou aqui."

Um sorriso desenha-se no rosto do mortal. A fronte curva-se mais. Os olhos percebem na sombra de si, projetada no chão, a sombra d'Outro, com sua mão repousando sobre o ombro esquerdo do servo fiel. O êxtase se apodera do homem antes impassível. Lágrimas tomam-lhe os olhos, as mãos tremem e desejam arrancar de si o coração para que não haja mais vida após tão consagrado contato. Mirklo sente-se infinitamente feliz.

"Eu estou aqui para dizer-lhe que renasço, Mirklo. Renasço para um poder maior, inimaginável mesmo aos deuses. Os dias eternos cessarão pela minha infinita bondade. Dia e noite voltarão ao seu equilíbrio anterior, embora a noite para mim seja uma aberração."

Mirklo não ousa pensar suas intenções. Deseja apenas ouvir, ouvir por toda a eternidade a voz de sua divindade ecoando em seus pensamentos. Quisesse sua divindade que ele agora tomasse de si a própria vida, ele, Mirklo, o faria de bom grado, entoando hinos de louvor.

"Ishmael Belarn ainda é um herege, bem como toda a sua linhagem. Todos os que serviram em Lathander e que agora professam uma falsa divindade vindoura são hereges. A rosa com correntes deve perder seus elos."

Um sorriso fanático de entendimento preenche o servo. O raio de sol antes sobre a fronte, desliza ao ao peito de Mirklo.

"O bem é o meu domínio e tudo o que eu faço é bom. A nobreza é o meu domínio e tudo o que eu faço é nobre. A proteção é o meu domínio e tudo o que eu faço é para proteger Faerûn. A renovação é o meu domínio e esta terra estagnada em sua maldade deve ser renovada. A força é o meu domínio e a minha força é maior que a de todos os deuses. O sol é meu domínio e minha luz será o farol para uma nova era. A auto-perfeição é meu aspecto e todas as minhas decisões são perfeitas. Mirklo, vem raiando no horizonte um tempo de grande renovação e para fazê-lo há algo que eu aprendi com Mystra"

O raio de sol subitamente atravessa o corpo de Mirklo, trespassando sua fé, expulsando deste toda a vida. O sol queima dentro de sua alma. Êxtase, dor. Mirklo chora. Seu deus tirou-lhe a vida! Que honra maior poderia ser esta? Quem seria digno de matá-lo se não o único digno entre os deuses? O corpo tomba sobre a relva. Os olhos fitam o sol longamente. Uma queda que dura toda uma vida dedicada ao Senhor do Amanhecer.

O renascimento de Mirklo.